Defesa do Serviço Nacional<br>de Saúde

Joana Sanches (Membro da Direcção
da Organização Regional do Algarve)

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma conquista de Abril. A Constituição da República proclama que «todos têm direito à protecção na saúde e o dever de a defender e promover» e explicita que o direito à protecção da saúde é realizado «através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendencialmente gratuito».

Apesar de um enorme avanço do acesso dos portugueses aos cuidados de saúde, ainda continua por desenvolver em pleno um SNS, que efectivamente confira o direito das populações a cuidados de saúde de qualidade e gratuitos.

Durante mais de 35 anos, particularmente nos anos de 2011– 2015, foi desencadeado um ataque contra o SNS, sustentado no falso argumento de uma melhor racionalização dos meios, e marcado por um processo de degradação da oferta pública, com o encerramento de dezenas de serviços de proximidade, urgências, maternidades e serviços de saúde mental, que tiveram como consequência mais de 1,5 milhões de portugueses sem médico de família, elevados tempos de espera para cirurgias e consultas, pondo em causa muitas vezes a segurança dos utentes.

A par dos cortes no financiamento do SNS, foram transferidas centenas de milhões de euros por ano do Orçamento do Estado para os grupos privados que não pararam de crescer; apesar da propaganda do governo PSD-CDS/PP, o certo é que prosseguiu sem limites a política de cortes e desinvestimento, de transferências dos custos para as famílias, demonstrando a clara intenção de aniquilação do SNS, através do estrangulamento financeiro.

Tal como é referido nas teses, na génese desta estratégia está uma opção que visa edificar um Sistema de Saúde centrado em duas componentes: um serviço público desvalorizado, dirigido às camadas mais desfavorecidas; e um outro, privado, exclusivo para quem detém seguros de saúde ou acesso a sub-sistemas públicos.

Peça fundamental no processo de privatização da saúde é o ataque dirigido contra os direitos dos trabalhadores da saúde, nomeadamente com o congelamento das carreiras, a intensificação da precariedade, a desvalorização salarial, a degradação das condições de trabalho.

Profissionais a quem se deve em primeiro lugar, pela qualidade e empenho do seu trabalho, o facto de, apesar de todas as malfeitorias, o SNS manter ainda níveis de qualidade significativos. Regista-se, neste momento da vida nacional e graças à luta que possibilitou a derrota do governo PSD/CDS e à intervenção do PCP, alguns avanços que importa aprofundar: a redução do número de portugueses sem médico de família, a redução em cerca de 25 por cento do valor pago em taxas moderadoras, a decisão de construção de novos hospitais e centros de saúde ou o compromisso de passar a componente em valor da venda de medicamentos genéricos para 40 por cento do total reduzindo custos para os utentes e para o Estado. Registamos ainda algumas decisões tomadas, apesar de insuficientes, a favor dos trabalhadores, como: o retorno às 35 horas, a redução e eliminação da sobretaxa de IRS, a contratação de mais médicos e enfermeiros, o aumento do valor do subsídio de refeição, a reposição da contratação colectiva.

O PCP continuará a defender com determinação o direito a cuidados de saúde de qualidade e reafirmamos a necessidade de as populações e os profissionais de saúde intensificarem a luta em defesa do SNS.

Apesar da ofensiva, o SNS resistirá.

Sou enfermeira no Hospital de Portimão e falo do SNS com orgulho e confiança. Orgulho e confiança em todos aqueles que, como eu, lutam diariamente, com empenho e dedicação, pela defesa do serviço público de saúde. Sou comunista, e sobre o meu partido e a sua acção falo com orgulho e confiança. Confiança na luta que, hoje e sempre, faremos na defesa daquele que é o nosso sistema universal de saúde, um sistema de todos e para todos.

 



Mais artigos de: Em Foco

Intervenções no XX Congresso

Concluímos neste número a publicação de intervenções e saudações proferidas no XX Congresso do PCP, realizado em Almada de 2 a 4 de Dezembro. Subtítulos da responsabilidade da Redacção

Sobre comunicação social

Queria dirigir uma palavra aos profissionais de comunicação social que acompanham o nosso Congresso a trabalhar. São trabalhadores que à semelhança de todos os outros têm visto os horários de trabalho aumentar e o salário a diminuir. Viram...

A situação e a luta reivindicativa<br>dos reformados

Os reformados, pensionistas e idosos, com um peso crescente na sociedade portuguesa, continuam confrontados com um conjunto de problemas que têm a sua génese na exigência de pensões dignas, razão da sua luta pelo combate às desigualdades sociais,...

Política de habitação

«Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.», pode ler-se no número 1 do artigo...

Os problemas e a luta<br>das mulheres

A Revolução de Abril produziu profundas transformações na vida das mulheres, na sociedade e no País, abriu portas à efectivação da igualdade, na lei e na vida, rasgou caminhos para a sua emancipação. Caminhos que se...

A luta dos micro, pequenos<br>e médios empresários

Na Região de Setúbal, os micro, pequenos e médios empresários constituem uma camada extremamente heterogénea presente em todos os sectores económicos, tendo um peso económico e social muito relevante. A importância política...

A defesa da Escola Pública

Nos últimos anos acentuou-se o combate ideológico na Educação, em torno da Escola Pública. Os que defendem a Escola Pública Democrática, ou seja, de qualidade, para todos, inclusiva e gratuita, sabem que esse é factor essencial...

A situação dos imigrantes

Venho falar-vos da imigração em Portugal, num momento em que no Mundo se agrava o carácter desumano, agressivo e explorador do sistema dominante, o sistema capitalista, responsável pelos processos de desestabilização e guerras, de saque dos recursos...

A luta dos pescadores<br>e pequenos armadores

Camaradas, o sector das pescas em Portugal vive, por estes dias, situações de grande dificuldade, dada a insistência de Bruxelas em desmantelar cada vez mais a nossa capacidade produtiva. Ainda assim, as organizações de pescadores e pequenos armadores...

A luta das pessoas com deficiência

Neste dia em que se celebra o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência proponho ao congresso uma saudação a todas as pessoas com deficiência e às suas famílias. Na Europa calcula-se em 80 milhões o número de pessoas com...

A situação na agricultura<br>e a luta dos agricultores

A Agricultura é uma actividade sem a qual a vida não subsiste, que à semelhança de outras actividades tem dificuldade em resistir à fúria do capitalismo onde impera a exploração do Homem pelo Homem e se abusa dos animais...

A luta nas empresas<br>e locais de trabalho

A luta da classe operária e dos trabalhadores foi e é o motor da luta de massas. A luta confirmou-se e confirma-se como factor decisivo para ruptura com a política de direita, para a construção da alternativa política patriótica e de esquerda,...